Política

As historias cabeludas de Josimar de Maranhãozinho

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O cearense de Várzea Alegra, deputado federal Josimar Cunha Rodrigues, 54, com o nome político de Josimar do Maranhãozinho, virou um fenômeno eleitoral do Maranhão a ponto de já ser incluído na lista dos prováveis candidatos a governador do Maranhão em 2022. Ontem, porém, quem bateu na porta de seus imóveis, endereços diversos e do escritório político em São Luís não foram eleitores, mas agentes da Polícia Federal, integrantes da “Operação Descalabro”, que investiga supostos desvios de R$ 15 milhões em verbas de emendas parlamentares do deputado Josimar, para a saúde.

Em 2020 o parlamentar teve uma emenda aprovada, autorizada, empenhada e paga de R$ 13.940.454, para “Incremento Temporário ao custeio dos serviços de atenção básica em Saúde para cumprimento de metas”, segundo o Portal Transparência da Câmara, entre abril e este mês de dezembro, conforme da Polícia Federal. Outra emenda de R$ 2 milhões foi igualmente aprovada, empenhada e paga sob a rubrica de “serviços de assistência hospitalar e ambulatorial para cumprimento de metas”. Os dois valores batem com as investigações da Polícia Federal, de R$ 15 milhões.

Como medida cautelar, a Justiça Federal autorizou o bloqueio de R$ 6 milhões do parlamentar, que se manifestou em nota de esclarecimento (Leia abaixo), em que explica ainda a origem dos R$ 2 milhões em espécie encontrados em sua residência. Segundo ele, resultado de negócio no ramo de agropecuária. Na nota, ele sugere perseguição política, em razão da operação da PF coincidir com o anúncio recente de ser candidato a governador em 2022.

Campeões de voto
Desde 2004, quando se elegeu, o primeiro prefeito de Maranhãozinho, município criado em 1994, hoje com 14 mil habitantes, ele transformou a cidade num vigoroso centro do curral eleitoral. Foi quando passou a adotar o sobrenome político de Maranhãozinho, sendo reeleito em 2008, pelo PR. Na mesma eleição, ele elegeu a esposa Maria Deusdete Lima Cunha Rodrigues, a Detinha, prefeita do município vizinho Centro do Guilherme.

Em 2014, Maranhãozinho sagrou-se deputado estadual com a maior votação entre seus pares da Assembleia Legislativa do Maranhão. Na campanha levou para as ruas a fama de ser “Moral da BR-316”, pelo hábito ousado de fechar a rodovia federal que corta aquela região, e realizar festas populares para seus eleitores. Em 2018, Maranhãozinho deu outra guinada espetacular, ao se eleger o deputado federal campeão de urnas, com 195,6 mil votos. A esposa Detinha (PR), também bateu recorde para deputada estadual, com 84,4 mil votos.
Mesmo tendo inicialmente a candidatura impugnada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Maranhão, por irregularidades como prefeita do Centro do Guilherme, Detinha acabou obtendo o direito de concorrer e se eleger. Com esse imenso feudo eleitoral, Josimar passou a ser conhecido não apenas como uma “fábrica de votos”, mas também como milionário em pouco mais de doze anos. E também poderoso em âmbito estadual, chegando a lançar a esposa Detinha pré-candidata à prefeitura de São Luís em 2020, mas depois desistiu.

Evolução patrimonial
Assim, de prefeito pobre e de um município igualmente miserável, Josimar declarou à Justiça Eleitoral, quatro anos depois, na reeleição, um patrimônio de R$ 463.906,86. Em 2014, quando concorreu à Assembleia Legislativa, seu patrimônio já estava em exatos R$ 6.563.240,69. Em 2018, o blogueiro Yuri Almeida (Atual7), vasculhou o portal DivulgaCand, sistema responsável pela divulgação das candidaturas registradas em todo o Brasil, do TSE. Maranhãozinho já declarava possuir um patrimônio R$ 14.591.074,31. Agora, ele vai ter a chance de explicar à Polícia Federal, dentro da “Operação Descalabro” qual a lógica de se tornar milionário com tanta facilidade na política de um dos Estados mais pobre do Brasil.

Financeiramente, ele pode ser considerado o político mais acumulou fortuna em tão pouco tempo, a partir de Maranhãozinho, que limita-se ao Norte com o município de Governador Nunes Freire e Cândido Mendes, do qual foi desmembrado. A Leste, com o município de Santa luzia do Paruá; a Oeste com os municípios de Centro Novo do Maranhão e Centro do Guilherme e, ao Sul, com o município de Presidente Médici. Toda uma região abundante de pobreza extrema.

Não repete mandato
Logo depois de 2018, no auge da fama de ser um “espocador de urna”, como se costuma chamar os políticos bons de votos, Josimar, como o mais bem votado, afirmou a O Imparcial que não gosta de repetir mandato. Já insinuava que seu projeto em 2022 seria uma vaga no Senado ou mesmo concorrer ao governo do Maranhão, vice-governador. Afinal, em 2020, o hoje alvo de megaoperação da Polícia Federal, conseguiu eleger por seu novo partido, o PL, nada menos que 40 prefeitos, dos 117 candidatos do lançou. Só perdeu para o PDT, do senador Weverton Rocha.

Na Câmara dos Deputados, com 11 meses de mandato, o campeão de votos no Maranhão e votado em todos os 217 municípios, não encontrou um único tema que o encorajasse subir à tribuna para proferir qualquer discurso. É o que consta em sua página no portal da casa legislativa mais importante do Brasil. Por essas e outras é que Maranhãozinho vem sendo investigado desde 2019 pelo Gaeco e a Polícia Civil do Maranhão, sobre licitações envolvendo um esquema de desvios nos municípios da base política do deputado. Uma só dessas empresas participou entre 2017 e 2020 de licitações de R$ 32,9 milhões. Ela participou de 17 licitações e não perdeu nenhuma.
O Bom Dia Brasil, da TV Globo, exibiu na manhã desta quarta-feira (9) imagens da Polícia Federal apreendendo dinheiro vivo na residência de Josimar de Maranhãozinho (PL), que depois veio a revelar o valor de R$ 2 milhões. O deputado disse em nota que o dinheiro é legal, resultante de negócios no ramo de agropecuária. Ele teve decretado o bloqueio de bens e valores pelo Supremo Tribunal Federal, por ter foro privilegiado como deputado federal.

O esquema, segundo a PF
A Polícia Federal explica como funciona o esquema de desvio de emendas parlamentares no Maranhão. O crime vinha sendo investigado pela PF e foi desbaratado durante operação que culminou com várias pessoas presas na semana passada. A operação aconteceu após denúncia do prefeito de São José de Ribamar, Eudes Sampaio, que estava sendo ameaçado por agiotas ligados aos donos das emendas.

Os Fundos Municipais de Saúde, ao receberam os recursos, firmaram contratos fictícios com empresas “de fachada”, pertencentes ao Deputado do Partido Liberal, que estão em nome de interpostas pessoas, desviando, assim, o dinheiro público. Posteriormente essas empresas efetuaram saques em espécie e o dinheiro era entregue ao deputado Josimar, no seu escritório regional parlamentar em São Luís.

Emendas para Codevasf
Levantamento obtido por o site O Antagonista mostra que, só em 2019, o deputado do PL empenhou mais de R$ 75 milhões em emendas para ações da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba) – quase 20% de todos os recursos que a empresa obteve por meio de emendas e Termos de Execução Descentralizada (TED). Seria para obras de pavimentação, compra de tratores e escavadeiras, caminhão pipa e outros serviços, nos municípios da base eleitoral de Maranhãozinho: Centro do Guilherme, Zé Doca, Igarapé do Meio, Araguanã, Lago dos Rodrigues, Coroatá, São Matheus, Monção, Codó e Colinas.
Ainda segundo o Antagonista, a PF tem informações de que o parlamentar conseguiu destinar tamanho volume de recursos a partir de um esquema de compra de emendas de outros parlamentares. A negociata também envolveria prefeitos comprometidos a contratar empresas indicadas por Maranhãozinho, que recebia posteriormente uma “comissão” – retirada de contratos superfaturados por meio de emissão de notas frias.

Maranhãozinho esclarece
Nesta quarta-feira, no fim da manhã, a Assessoria do deputado Josimar do Maranhãozinho liberou a seguinte nota de esclarecimento sobre a operação da Polícia Federal, que se resume em seis pontos:O

1 – Oeputado federal Josimar Maranhãozinho foi tomado de surpresa em relação à operação realizada pela Polícia Federal nesta quarta-feira (09). O parlamentar está tranquilo e se coloca inteiramente à disposição da Justiça para elucidar qualquer fato que seja necessário;

2 – Comonãoo tem nada a temer, Maranhãozinho reafirma, como sempre, seu total apoio à apuração dos fatos, desde que respeitados o devido processo legal e o amplo direito de defesa;

3 – Lembra ainda que, como deputado federal destinou mais de R$ 15 milhões aos municípios maranhenses, mas os recursos foram distribuídos e aplicados de forma legal prova disso, por exemplo, que o relator do inquérito na Justiça Federal não teria encontrado nenhum indício que pudesse autorizar prisão de algum dos investigados;

4 – O deputado estranha que a operação tenha surgido justamente, pouco tempo depois de reafirmar sua candidatura ao governo em 2022 e, coincidentemente, a uma semana após ser alvo de uma série de ataques dos adversários onde alguns, inclusive, chegaram a usar as redes sociais para comemorar ação de hoje, enquanto outros usaram seus assessores para anunciar em blogs, antecipadamente, que ele seria alvo da PF;

5 – Sobre o dinheiro encontrado em sua casa e escritório, esclarece que não existe nenhuma irregularidade já que o montante sequer ultrapassa o teto, informado à Receita, por meio da Declaração do Imposto 2020. Além disso, cabe informar ainda que o montante em especie que foi encontrado em seu poder são oriundos de sua atividade pecuária e empresarial, fatos que serão comprovados posteriormente;

6 – Por fim, para comprovar a veracidade dos fatos, anexamos cópias dos IR 2020 e do relatório de convênios assinados com recursos de emendas. Reitera que a sociedade maranhense pode continuar confiando na sua conduta, na certeza de que uma apuração isenta e justa resultará no pleno esclarecimento das denúncias. Além disso, o deputado reafirma que não irão lhe intimidar quanto ao seu desejo de concorrer na disputa majoritária de daqui a dois anos.

*Fonte:RaimundoBorges

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